segunda-feira, maio 04, 2009

MONSANTO. FESTIVIDADES

mulher que carrega o tradicional "pote de flores".
ascensão do cortejo.
dois "emblemas" cultuados ("o pote de flores" e o galo de prata relacionado com o concurso da aldeia mais portuguesa).
chegada do cortejo à capela da N. Senhora do Castelo.


(cont. da visita temática) 

A festa


chegado o rancho folclórico e a mulher que carrega o tradicional "pote de flores", seguimos este ancestral cortejo até ao alto das muralhas do castelo. sobre esta festividade sabemos que é celebrada no dia 3 de maio e é uma das mais emblemáticas da freguesia de monsanto. trata-se da festa da Divina Santa Cruz, Festa do Castelo ou simplesmente Festa do Pote. o ritual inicia-se ao final da manhã, com as mulheres trajadas com vestes tradicionais e coloridas.

"das arcas saem os saiotes e garridos xales, as fitas adamascadas com que ligam as tranças enroladas em martelo; as casacas de veludo e renda" (Buesco, 1984:66).

congregam-se para organizarem a procissão em honra da Senhora do Castelo, padroeira da povoação. Na cabeça, uma das mulheres, transporta um pote de flores. dizia-se que antigamente cabia a cada uma de cada rancho levar o correspondente pote.

"uma de cada rancho transporta à cabeça um pote caiado de branco, profusamente ornamentado e cheio de flores" (id., p. 66).

ascendem ao cimo do morro com o (s) pote à cabeça, atrás seguem em cortejo festivo o resto da povoação. pelo íngreme caminho tocam adufe e entoam cânticos alegres em honra da Senhora do Castelo alternados de outros mais tristes em honra da Santa Cruz (Jesus Morto). pelo caminho algumas das mulheres acompanham o cortejo tocando adufe, outras agitam as remotas marafonas (bonecas com armação em cruz e com trajes tradicionais coloridos). chegadas ao alto, (este ano) efectua-se uma missa, seguida da respectiva procissão com a N. Senhora em torno da capela. no final do dia, o grupo vai em cortejo novamente até ao ponto mais alto das muralhas e é então lançado o pote para o abismo, ouvindo-se um solene grito "aí vai o pote".

outras explicações:

Maria Leonor Buesco

"...esta celebração assenta sobretudo numa tradição pagã, isto pela evidência dos vestígios da glorificação do Maio. tendo sido cristianizada e nacionalizada pela sobreposição da Lenda do Cerco.

Lenda do Cerco

Segundo uns os Castelhanos, segundo outros os Mouros, ou ainda os Romanos, sitiavam o Castelo que a própria Natureza parecia dotar de inexpugnabilidade. Nunca os sitiantes chegariam à posse da fortaleza, nunca poderiam escalar os seus muros e perder-se-iam pelos meandros pedregosos, caindo nas ciladas que os sitiados preparariam escondendo-se em cada brenha e em cada gruta. Os inimigos, porém, Castelhanos ou Mouros, esperavam que a fome vencesse o Castelo erguido sobre as rochas – e, de facto, os celeiros iam-se pouco a pouco esgotando. Sete anos, diz a tradição, durou o cerco – sete anos de muda resistência e muda expectativa; e, por fim, dentro do Castelo nada mais havia que um alqueire de trigo e uma bezerrinha. A fome alastrava e a perda era inevitável. Surgiu, porém, o estratagema salvador: uma velha, com a sabedoria dos seus muitos anos, sugeriu que se desse todo o trigo à vitela e se lançasse do ponto mais alto do Castelo, sobre o acampamento dos inimigos, como sinal de abundância. Assim fizeram. Desfazendo-se sobre as rochas, a bezerra mostrou o ventre repleto de bom trigo – demonstrando que uma protecção, sem dúvida sobrenatural, abastecia os celeiros e os estábulos do Castelo…Isto foi no dia 3 de Maio – e os inimigos, depois de sete anos de espera infrutífera, levantaram o cerco. Deste então, nunca mais houve interrupção na Festa de Santa Cruz

(...) não nos parece deslocado, no entanto, chamar a atenção para a relação que pode haver entre a festa de Maio e os seus ritos de abundância, prazer e força da natureza e uma quadra que se encontra no cancioneiro local, rica, na sua concisão, de elementos etnográficos:

eu amei quem nunca amara
nem tal intento tevera:
fui a amar o rei das flores
no centro da primavera

esta quadra evoca, pois, todo o ritual da festa pagã, com a escolha do Maio - rei das flores" (1984, pp. 66-67).


Moisés Espirito-Santo

"Em Monsanto (...) é a festa de Adónis não cristianizada. digamos, antes de mais, que as várias Senhoras do Castelo, representadas como uma matrona, com uma coroa em forma de torre e na mão uma romã, não se relacionam com fortificações mas com comunidades de que são simbolos; são, isso sim, derivações de Cibele ou da Deusa Síria" (1988, pp. 96-97).


trata-se sem dúvida de um ritual com elementos extraordináriamente ricos: flores, trajes coloridos, cantos/prantos, toques de adufes, marafonas. porém, realço aqui também o papel da encenação da politica do Estado Novo nesta mesma festividade. hoje, é bem visivel, integrado neste mesmo cortejo, o "totem" do distinto concurso da aldeia mais portuguesa. neste mesmo cortejo que ascende ao cume, este "emblema" encabeça o respectivo cortejo e é exibido ao mesmo nivel de qualquer dinvindade, tornando-se também num simbolo sagrado a ser cultuado.  

...a visita temática terminou aqui, no seio deste imponente monte, que teima em continuar a ser cultuado...



Bibliografia

BUESCO, Maria Leonor Carvalho (1984) Monsanto. Etnografia e Linguagem, Lisboa: Editorial Presença.
ESPIRITO-SANTO, Moisés (1988) Origens orientais da religião popular portuguesa, Lisboa: Assírio & Alvim.

MONSANTO. FESTIVIDADES

vislumbre do Monte Santus a partir do lugar de S. Pedro de Vir-a-Corça.
(visita temática: à descoberta de Monsanto) desvendando segredos pela malha urbana.
a magnifica e imponente Torre.
momento de desfrute com os extraordinários bobos medievais.
chegada do rancho folclórico de Monsanto, acompanhado da mulher que transporta o "pote das flores" que será lançado do alto das muralhas do castelo.



visita temática: à descoberta de Monsanto
(municipio de Idanha-a-Nova)

iniciamos a visita às 8. 30 da manhã. saímos do largo da relva e fomos na direcção de S. Pedro de Vir-a-Corça. pelo percurso vislumbramos a admirável arquitectura tradicional envolvente e a ainda vicosa vegetação, com especial destaque para a autócne (antigos carvalhos e castanheiros). chegados ao mágico lugar de S. Pedro, efectuamos uma visita à remota capela e aqui procedeu-se às devidas explicações e enquadramentos: o Dr. Cristovão (arqueólogo) explicitou um conjunto de interessantes matérias relacionadas com a genese historico-arqueológica do próprio lugar onde nos encontravamos (S. Pedro de Vir-a-Corça) assim como sobre as próprias origens da humanização do Monte Santus (Monsanto). a mim, coube-me essencialmente falar sobre o acontecimento ritualístico da "Festa do Castelo", ou seja, o cortejo até ao alto das muralhas do castelo (pois iríamos assistir mais tarde). tentei sobretudo destacar a orgânica deste mesmo cortejo, explicitando a evidência de um conjunto de elementos extraordináriamente ricos e esclarecedores de ancetrais cultos pagãos. falou-se ainda do processo histórico ligado ao "concurso da aldeia mais portuguesa" (1938). daqui ascendemos o íngreme monte santus para adentrarmo-nos novamente nas malhas da antiga aldeia. nestas, o guia foi o dr. Cristovão que desvendou alguns dos seus segredos. para relaxar e colmatar o compasso de espera do ritual do cortejo do "pote das flores", contamos com a fantástica representação dos bobos medievais e de um pequeno reforço alimentar.  


 

quarta-feira, abril 29, 2009

PASTORES. GUARDIÕES DE UMA PAISAGEM


Pastores. Guardiães de uma paisagem

Eddy Chambino

Edição Municipio de Idanha-a-Nova, coordenação Paulo Longo


depois de cerca de quatro anos de intenso trabalho de campo pelo concelho de Idanha-a-Nova, assim como pela Serra da Estrela, eis que finalmente "colhemos o fruto"...
trata-se de um trabalho antropológico onde a memória e a cultura pastoril assumem uma especial relevância.

(uf...merece uma comemoração)

terça-feira, abril 28, 2009

MONTE SANTUS. FESTA DA DIVINA SANTA CRUZ



a não perder...

BIBLIOGRAFIAS...



the body between science and philosophy

yoga in modern India

Joseph S. Alter

There is probably no tradition that has been construed as more timeless, more intrinsically authentic, more inherently Indian than Yoga. It has become a kind of pristine cultural icon... My purpose in this book is to question some of the most fundamental assumptions about Yoga and, by extension, to question assumptions about civilization, modernity, and nationalism.

Alter, Joseph
2006 Yoga in Modern India: The Body between Science and Philosophy. Princeton University Press, p.14. (2006 Coomaraswamy Book Prize).

sábado, abril 25, 2009

REVOLUÇÃO...



..avancemos..


mansos cães na neve
escondidos na Primavera
quando o sol faz vinho
& o sangue dança perigoso
nas veias ou na vinha

Jim Morrison, Abismos.

quinta-feira, abril 23, 2009

TRANSUMÂNCIA E HISTÓRIA. MUSEU VOSTELL


Museo Vostell, 2008. Vostell acompanhado de dois pastores.
Museo Vostell, 2008. Rebanho transumante a atravessar a ponte internacional de Alcântara (Espanha).
Museo Vostell, 2008. Conca em madeira e colher. Servia para os pastores comerem.


o museu Vostell fica situado em Malpartida de Cáceres, num complexo histórico ligado à lavagem das lãs (lavadouro). embora não sendo um museu inteiramente dedicado à temática da transumância, faz menção à sua historicidade ligada ao edificio e à do território envolvente. 
um lugar que emana magia...

quarta-feira, abril 22, 2009

O BODO DE MONFORTINHO. FESTA E DÁDIVA.

Cozinheiras do bodo.
Mulheres, lavagem das bacias.
Monfortinho, Bodo, 2005. Mulheres a migar a carne.


começou hoje o tradicional Bodo de Monfortinho. festa em honra da Senhora da Consolação.ritual de extraordinárias dádivas onde a carne de cabra e de ovelha assume um especial destaque. hoje (quarta-feira) a partir das cinco da tarde serviram-se os rins (rins com ovos e rins com mioleira). tal como o ensopado e a fessura. amanhã (quinta-feira) depois da missa e da procissão,  é servida a sopa de grão, "sangria" e novamente o ensopado e o arroz com carne. depois na sexta-feira repetem-se as ementas. um dado interessante prende-se com o facto de no dia de quinta-feira a refeição estar reservada apenas aos "forasteiros", pois os locais não comparecem neste dia para comer, comem em suas casas a mesma ementa. já no dia seguinte, sexta-feira, aparecem em massa para celebrarem o dia que dizem ser "o dia do nosso povo vir a comer". esta extraordinária celebração estrutura-se entre dois espaços: o largo da cruz e o adro da igreja. é de realçar também os tipicos arraiais celebrados no final de cada dia. trata-se de uma festividade com contornos verdadeiramente notáveis.

segunda-feira, abril 20, 2009

DOS USOS DE UMA PAISAGEM...

Rosmaninhal, 2009.

sempre que cruzo estas imensas paisagens ditas rurais estonteio de perplexo deslumbramento. surgem-me cativantes associações entre o Homem, a fauna e flora. tudo parece fazer sentido quando vislumbramos os séculos de inusitadas experiências, observações, necessidades, erros sistemáticos e ajustamentos entre o Homem e o meio envolvente. deste milenar confronto surgiram as inúmeras especies animais e vegetais domesticadas, ou seja, surgiu toda esta complexa simbiose denominada hoje pelo vocábulo "paisagem". neste sentido, o Homem criou vinculos com a terra e com inúmeros produtos que dela foi extraindo. são estes vinculos culturais que foram tecendo emblemas e outorgando assinaturas aos lugares. pergunto, o que seria do vasto território raiano sem a criação de ovelhas e sem os seus subprodutos (queijos, carne, lãs, etc)? 


domingo, abril 19, 2009

Mais Pombais...

Idanha-a-nova, 2007.  Arraial da Piçarra.


este é sem duvida um dos arraiais mais curiosos e ao mesmo tempo extraordinários que visitei em todo o concelho. isto pelo facto de comportar logo à entrada estas duas "torres" que nos remetem para um imaginário medieval. estas duas "torres" circulares eram dois magnificos pombais. este também é um daqueles exemplos de urgente restauro.

Mais Pombais...

Rosmaninhal, 2008. Arraial da Fainina.

outro exemplar circular, construido em xisto. estas fantásticas estruturas poderiam ser (re)utilizadas para inúmeras funções: desde simples casas-abrigo a centros de interpretação da fauna e da flora local. no entanto, fundamental seria a sua função primária, ou seja, voltar a ser pombal com pombos.

sábado, abril 18, 2009

ARQUITECTURAS TRADICIONAIS

Rosmaninhal, 2009. Pombal.


estas arquitecturas associadas à criação de pombos (pombais) apresentam-se por todo concelho através de multiplas formas e estruturas. o modelo circular é predominante. este exemplo é extraordinário pela escadaria anexa que dava acesso ao seu interior. tenho pena que este tão importante património entre nos domínios do esquecimento.



penso que é urgente repensar todo o marketing associado à venda dos alimentos. 
nomeadamente o binómio qualidade/criatividade.
admire-se esta embalagem de peixe bio..um espanto, apetece guardar...

quinta-feira, abril 16, 2009

visite...
um interessante blogue de divulgação do núcleo da pastorícia da aldeia do Salgueiro (Fundão)

domingo, abril 12, 2009

(foto eddy, 2009)

Sé, Idanha-a-Velha..misteriosa e fascinante...

sábado, abril 11, 2009



um aleluia intercultural...desejos de felicidade e de prosperidade para todos os seres humanos deste planeta.

DIAS DE SILÊNCIO

(foto eddy, 2008)


pela maioria das aldeias da beira baixa pautam as tradições populares evocativas  da Paixão de Cristo. outrora, tudo era cumprido ao rigor, principalmente na Sexta-Feira Santa. jejuava-se, não se trabalhava, nem tão pouco se cozinhava. este era o dia por excelência do silêncio.

sexta-feira, abril 10, 2009

ROSMANINHAL, ROTA DOS VEADOS



(fotos Eddy, 2009)

Aconteceu do passado domingo dia 5 de Abril a inauguração deste percurso. foi uma caminhada pautada pelo agradável sol primaveril e pelo companheirismo dos fabulosos amigos amantes da natureza. um abraço para o Tomé e para a Cláudia. 
(foto Eddy, 2007)


era uma casa - como direi? - absoluta

H. Helder

domingo, março 29, 2009

HEMEROTECA


Jornal Blitz - Ano XII Nº 621, 24 de Setembro

...

fui assinante deste mitico  jornal desde inicio dos anos 90 do século passado. é assustador, como o tempo passa e como de repente passo a ter um arquivo fascinante de dois mil e tal exemplares desta histórica publicação. aqui iniciei a publicação de uns pequenos textos que eram frequentemente publicados numa secção denominada "Pregões & Declarações". como ainda não tinhamos o desfrute dos telemóveis nem tão pouco da internet, as mensagens, declarações, misssivas, amores, desamores, poemas, etc., tinham aqui neste espaço um amplo eco. tudo se esvaneceu com as novas tecnologias. até mesmo este formato em papel de jornal, hoje esta mitica publicação já é editada em formato de revista. 

relativamente ao conteúdo da noticia da capa sobre a edição de uma autobiografia electrica dos então recém desaparecidos nirvana, o jornalista escreve: "from the muddy banks of the wishkah" é um álbum particularmente vocacionado para todas as pessoas que nunca assistiram aos nirvana ao vivo".  eu ainda tive a sorte de assistir ao hilariante concerto dos nirvana no histórico dramático de cascais...
(mike paré)

can I love the whole world?

sexta-feira, março 27, 2009

(foto Eddy, Monsanto, 2005)


tudo será construido no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra.
tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá."

António Ramos Rosa, O aprendiz secreto, p. 11.



"Closed zone"

genial ...esta animação sobre o conflito israelo-palestiniano e a opressão que causa à liberdade de viver...

domingo, março 22, 2009

(foto eddy, 2007)

arquivo oral - histórias de vida
etiqueta - Guerra Civil Espanhola

Josefa Moreno Rico, 95 anos, natural de Alcântara (Espanha), residente no Rosmaninhal (Idanha-a-Nova)

"Vim para o Rosmaninhal tinha 15 anos. Morreu o meu pai e a minha mãe e eu fugi da guerra civil espanhola. Casei aqui (Rosmaninhal) e tenho uma filha, mas está em França. O meu homem já morreu. Chamava José Miranda. No tempo da guerra eu estava em espanha, depois fugi. Nesta altura deitavam as pessoas da ponte de Alcantara cá para baixo."
(art wolfe)

nómadas.deserto.fascínios
elementos para uma geografia do desconhecido

sábado, março 21, 2009

(ingue/deviantART)

happy spring

ADUFE 14


já está a circular o nº 14 da espectacular Adufe

sábado, março 14, 2009

DAN FUNDERBURGHla Mano de Dios

catálogo/exposição 

Maria Jesús Manzanares

"O sonho do pastor"

(Centro Cultural Raiano)

quinta-feira, março 12, 2009

(foto eddy)


resgatar um objecto moribundo, condenado a essa agonia fatal que advém desse mesmo esquecimento a que normalmente é submetido, é um exercicio interessante e pertinente, é pois tentar reter o tempo, ou seja,  musealizar. veja-se a titulo de exemplo aquilo a que denominamos por "lixo". o que é lixo e o que não é? veja-se o complexo mundo da reciclagem, onde um conjunto de lógicas, muito próximas das lógicas patrimoniais, (re) valorizam, (re) funcionalizam, (re)utilizam objectos que à partida estavam no final da sua vida. 

quarta-feira, março 11, 2009

(mirco macacci)

...e daí emana a estranha melodia

sábado, março 07, 2009

Rosmaninhal: "Cantar às Benditas Almas"




(fotos eddy, 2009)


pelas frias noites da Beira Baixa, em muitos concelhos e freguesias, já se ouvem, às sextas-feiras, os "cantares às almas" (encomendação das almas). Normalmente, iniciam-se pelas 00 00 horas e são tristes ladainhas entoadas nos pontos altos das aldeias e vilas. No concelho de Idanha-a-Nova, a maioria das freguesias possuem este costume. são grupos, ora mistos ora apenas formados por mulheres. Este ano, decidi acompanhar o grupo do Rosmaninhal e fiquei simplesmente impressionado. trata-se de um canto acentuadamente triste e funebre, que apela e recorda a condição mortal do ser humano e por consequência as suas faltas neste mundo. para além das vestes enlutadas, uma campainha pauta o ritmo do começo e do fim de cada paragem. a quem nunca acompanhou pelas solitárias ruas destas remotas aldeias estes fantásticos rituais funebres, aconselho urgentemente, vale mesmo a pena...

sexta-feira, março 06, 2009


(fotos eddy)

amo estas constelações.

quinta-feira, março 05, 2009



(fotos Eddy)



caminhei e já não caminhava porque já não tinha corpo e vi um cipreste iluminado 
aromas de incenso e de jasmim levaram-me para a profundidade de qualquer flor
ali sem corpo quem era eu?



quarta-feira, março 04, 2009

coisas que acontecem enquanto lavo a louça...



(Positron. Collaborative zine created by Micah Lidberg with Mike Perry.)


num destes dias, estava a lavar a louça e a prestar atenção a um destes programas de final de tarde preenchidos com todo o tipo de noticias do "quintal". um dos entrevistados era um mediático escritor, envolvido no miolo do meio literário há décadas e numa das "secas" perguntas de chinelo que a entrevistadora de sofá lhe fez (o que gostaria de dizer às pessoas lá de casa?), o magno e iluminado escritor respondeu: é preciso que as pessoas leiam mais, gostaria de ver as pessoas a ler mais!! será que com tanta vida literária, com tantas "correntes da escrita" no "pêlo", com tantas ilustres conferências e viagens "on the world"...é apenas isto que tem a dizer aos milhões de telespectadores? nem uma ideiazinha fresca?
ideias??? talvez depois de lavar a louça...

terça-feira, março 03, 2009

(andrea dezso)




há dias assim...

domingo, março 01, 2009

PAISAGENS PASTORIS

Rosmaninhal, 2007.


quem frequenta as paisagens hoje? 

não há muitos anos contavam-se às centenas de rebanhos e pastores nas paisagens raianas. tudo se transformou, avistam-se com menos frequência rebanhos acompanhados por pastores, aqui e ali vão pontuando alguns rebanhos  solitários em terrenos vedados. a ausência do pastor na paisagem é aterradora, causa vazio e abandono. em particular  quando alguém conheceu e viveu esta realidade de perto. no meu caso concreto, tive a oportunidade de ainda conhecer uma das últimas gerações de pastores. acompanhei as suas travessias, ouvi as suas histórias, perscutei os seus medos e experiênciei uma das actividades mais remotas da humanidade. penso no paradoxo deste mundo actual, tecnológico, massificado, urbanizado, higienizado, etc. penso na paupérrima cultura que é partilhada e que é gerada pelos ansiosos "up-dates" tecnológicos, pelas redes de informação que se tornam também redes de iliteracia e definhamento da lingua, redes de pobreza acentuada, reificação atroz da opinião pelos media, pauperização da mente, etc, etc... é precisamente enquadrado nestas lógicas que surgem os novos actores das paisagens: excursionistas pedestres, ciclistas, caçadores, vigias e guias da natureza. cada vez mais deixa de fazer sentido falar em natureza...