quinta-feira, março 20, 2008

RITOS QUARESMAIS


A quaresma que se iniciou com um amortalhar colectivo atinge o seu auge. Esta penitência colectiva  outrora assente sobretudo em ritos negativos: abstenção de consumir carne, proibição de actividades ruidosas, de cantar durante o trabalho e mesmo de usar roupas "alegres". Hoje resume-se praticamente à pontualidade do luto tenebroso da Sexta-Feira Santa, pautado por solenes procissões nas ruas escuras das aldeias onde o silêncio impera. Tudo se revela tenebroso: os passos lentos e dolorosos, as vestes negras, a sonoridade triste, a contenção das gestualidades, as velas e os archotes que crepitam como fogo-fátuos, o som sinistro das matracas que, segundo dizem,  "é semelhante ao som de ossos que se partem". Trata-se no seu pleno sentido simbólico de uma morte colectiva. Para quem nunca presenciou esta fascinante vivência, aconselho impreterivelmente o acompanhamento destes ritos tenebrosos pelas aldeias do concelho de Idanha-a-Nova, porque vale mesmo a experiência!

segunda-feira, março 17, 2008

ARQUITECTURAS DE TERRA




Casas em adobe, Ladoeiro (Idanha-a-Nova), 2008.

aqui neste lugar virtual tenho dedicado uma especial atenção a este tipo de construções. isto pelo facto de assistir ao seu progressivo desaparecimento. sabendo da importância milenar destas construções ecológicas, tenho alertado consecutivamente para a sua preservação. da minha parte, registo o saber-fazer dos seus "arquitectos", as suas técnicas, os materiais, as perícias, os objectos e as múltiplas histórias que lhes estão associadas. aproveito ainda para fazer a biografia possivel de algumas destas casas, traçar mapeamentos, etc. relativamente à sua localização geográfica dentro do concelho de Idanha-a-Nova, estas construções circunscrevem-se basicamente às aldeias do Ladoeiro e dos Toulões e suas respectivas paisagens limítrofes. 

domingo, março 16, 2008

FREE TIBET/ TIBET FREE


(Reuters)

Mais palavras para quê!?!?

sexta-feira, março 14, 2008

O REGISTO DAS TECNOLOGIAS DOS ESPANTALHOS


Cegonhas (Idanha-a-Nova), 2008.

Com o tão vincado abandono dos campos avultam por todas as paisagens inúmeros vestigios que evidenciam práticas hoje completamente inoperantes. Entre um vasto número, menciono e destaco as fantásticas tecnologias dos espantalhos, intimamente relacionadas com o afastamento dos potenciais invasores das parcelas cultivadas. Estamos perante uma multiplicidade de formas, umas ligadas à acção do vento, outras unicamente através da projecção do elemento da estranheza. Deste modo e por ser uma das minhas temáticas de eleição - a dimensão das tecnologias dos espantalhos - tenho por isso dirigido a minha atenção para o registo de um número crescente destas tecnologias, incluindo algumas inovações mais recentes como os cd's, os sacos plásticos coloridos, bonecas com fartas cabeleiras, etc. Aqui regressarei com a devida diversidade.

quarta-feira, março 12, 2008

LEITURAS ACTUALIZADAS EM TORNO DO "DAMONHO"...


Revista Terrain nº50 Mars 2008.

Sumário:

"De la grande panique sataniste qui a touché les USA et la Grande-Bretagne dans les années 1990 à l’omniprésence du Diable dans le discours des très dynamiques églises évangéliques, en passant par le regain des exorcismes effectués par les prêtres catholiques, la figure du Diable est toujours bien présente aujourd’hui en Europe. Même si la publicité use et abuse d’une image d’un Diable plus comique que dangereux, dans d’autres contextes ses représentations jouent toujours un rôle maléfique."

- Para consultar o sumário dos diversos artigos:

terça-feira, março 11, 2008

DAS RECOLECÇÕES À GASTRONOMIA LOCAL




Espargos-Asparagus officinalis

Por todo concelho de Idanha-a-Nova crescem estes espinhosos arbustos, simbolos exímios de orografias acidentadas. São essencialmente os seus frescos rebentos que são verdadeiramente apreciados nesta altura do ano. Importa sublinhar que um apreciável conjunto destas recolecções silvestres inscreve-se ao longo do calendário gastronómico local assinalando de forma evidente um conjunto de práticas e saberes que comportam: qualidades, épocas do ano, conhecimentos entre o que é comestivel e o que não é, perícias, sociabilidades, etc. Acerca deste vasto conjunto de recolecções destaco: os espargos, os tortulhos, as criadilhas, as meselhas, boguelhos, entre muitos outros (alguns destes nomes variam de aldeia para aldeia). Relativamente ao prato acima ilustrado deixo-vos o apetite para que possam saborear esta saudável refeição de espargos silvestres com ovos mexidos pelas terras idanhenses.

segunda-feira, março 10, 2008

porque o futebol é um fenómeno social e cultural de enorme amplitude, porque sou benfiquista, opto por colocar esta infeliz certeza: "o Benfica é um circo".

sábado, março 08, 2008

NOVAS CONFIGURAÇÕES DO UNIVERSO PASTORIL


V. A., Beira Alta, 2007.

Ouvi o harmonioso som dos chocalhos e das campainhas que me indicavam movimento. Orientei-me na sua direcção, segui por um velho caminho e de repente deparo-me com um tractor e uma mulher que o conduz e atrás, ordeiramente, numa sequência aparentemente pacífica e serena, o seu rebanho também ele a ser conduzido. A orientar este pequeno exército, dois cães hábeis na dita condução fecham as cerradas fileiras. Esta imagem ilustra muito bem o poder de adaptação e inovação dos grupos humanos. Vincando desta forma a errada visão de um mundo estático, fechado nesse passado concebido de modo idealista e ahistórico. Mesmo as sociedades mais remotas, como por exemplo aquelas confinadas em espaços de montanha, desde sempre procuraram romper com essa adversidade, através de seculares deslocações em busca de pastos, mercados e trabalho. Portanto, quando falamos de cultura, estamos também a falar de invenção, descontinuidade, novidade, ruptura, mudança, etc.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

LAVRAR A TERRA...

Ti Joaquim, Rosmaninhal, 2007.


Esta é uma imagem singular nos dias de hoje, pois com o processo de mecanização dos campos os tractores foram remetendo estes animais, estas ancestrais alfaias agricolas e suas funcionalidades para o esquecimento. Para além da importância do registo destas práticas que já se encontram mais próximas de se tornarem meras reminiscências, sublinho, exalto, aclamo, elogio principalmente a experiência sensorial que uma lavra elaborada a sangue emana, desde o fresco e estranho aroma da terra a ser dilacerada, às diversas sonoridades que acompanham e comportam este acto de lavrar a terra com um animal e com uma alfaia tradicional. Algo de muito para além das meras e infrutíferas explicações eruditas se apreende numa experiência vivida desta natureza.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

UM EXCELENTE PONTO DE PARTIDA...



"O que importa saber não é se o património produz e/ou expressa identidade, mas antes saber se produz e/ou expressa identificação, ou seja, até que ponto motiva um determinado conjunto de pessoas a se identificarem com uma determinada "ficção identitária" e até que ponto essa ficção é percepcionada enquanto real."

(Elsa Peralta e Marta Anico, Patrimónios e identidades, p. 3)

DAS MÃOS...



Maria Nabais, Penha Garcia, 2008.

Durante as minhas constantes conversas informais com as gentes das aldeias sempre registei e continuo a registar o universo do corpo enquanto simbolo de multiplas linguagens. Dos infinitos registos destaco aqui o meu fascinio pelas mãos das gentes que trabalharam árduamente nos campos. Mãos que aprenderam a utilizar diversas ferramentas, gestos e performances de trabalho e que devido à perserverância ficaram por isso perpetuados sob a forma de cicratizes, deformações e calos que hoje nos podem contar multiplas histórias.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

UMA ENTREVISTA AO GRANDE MESTRE BENJAMIM PEREIRA...



Conheci o grande mestre da etnologia portuguesa na Idanha, mais propriamente no Centro Cultural Raiano. Depois de ter lido até à exaustão os seus distintos trabalhos, eis que numa manhã de Maio tive a oportunidade de conversar acerca de muitas e infidáveis matérias e experiências. Nesta entrevista, Benjamim Pereira fala-nos sobre a importância da DANÇA em contextos rurais.
Desde aqui, deixo-lhe um abraço amigo.

sábado, fevereiro 23, 2008

ACERCA DAS BESTAS...





(Fonte: SICD)


Em primeiro lugar quero destacar este tempo remoto onde a arte das gravuras - que tanto admiro - ocupavam admirávelmente o lugar da fotografia. Em segundo lugar referir que tinha ou sentia a necessidade remota de escrever, ilustrar, apresentar, imaginar, arquitectar, fantasiar neste espaço virtual algumas linhas inteiramente dedicadas às denominadas BESTAS, pois uma das primordiais ideias implicitas na construção deste blogue foi precisamente perscutar os espaços a eles confinados dentro das ditas casas rurais. Deste modo, estes interessantes animais que outrora preenchiam um espaço de capital importância na vida das populações deste país ( embora em alguns casos, já muito pontualmente, ainda continuem a preencher em pleno as funções ancestrais ), encontram-se em vias de desaparecer para todo o sempre e com eles todas as suas práticas e funcionalidades. Deste célebre conjunto, cavalo,macho, mula e burro, este último talvez seja o que mais se têm destacado, pois beneficiou - e muito bem - de um conjunto de medidas no sentido de o proteger da sua total extinção do território nacional. Em alguns casos inserindo-se com relativa facilidade nos mesmos parâmetros de salvaguarda dos campos tão vastos dos patrimónios e com base em semelhantes activações começou mesmo a preencher novas funcionalidades ligadas a fins lúdicos, turisticos e terapeuticos. Aparecendo deste modo reinventado em inúmeras feiras encenadas, percursos de outrora, festas e tradicionais desfiles. Assim sendo temos o fim das funcionalidades ancestrais ligadas ao burro (trabalho, carga, ritualidades) e o (re)surgimento deste enquanto activação patrimonial, ou seja, enquanto memória colectiva e identidade ligada aos campos. Vale a pena questionar estas novas configurações patrimoniais...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

THE DARK SIDE OF THE MOON...






Ontem, tive a oportunidade de me deslocar para um ponto alto afastado de qualquer luz artificial (a chamada poluição luminosa) para vislumbrar um dos fenomenos astrofisicos que mais me fascina, os eclipses lunares e solares. O eclipse lunar de ontem foi total. Também contei com a sorte de entre alguma nebulosidade o céu ter ficado deslumbrantemente límpido. Valeu a pena o tempo, a madrugada, a força mágica do universo. Quanto ao próximo, só em 2010.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

MUSICA TRADICIONAL ITALIANA






Com esta encantadora performance intitulada de "Tarantella calabrese" fundo neste espaço um lugar para a dimensão das imagens em movimento.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

PATRIMONIOMANIA



Porque a qualidade maior do património rural está em: ser um espaço multidimensional apto a produzir e dar a ver a diversidade.

domingo, fevereiro 17, 2008

AS MATÉRIAS DA TERRA


Fabrica de cortiça, Ermidas do Sado, 2008.

O vislumbre do abandono de uma das matérias-primas mais característica e mais influente nas economias locais desta vasta região alentejana, ou seja, a cortiça. Aos mestres cortiçeiros, aos velhos complexos industriais que ficaram, à caracteristica paisagem de sobreiros e suas subculturas, aos circuitos, fluxos, migrações que muitas destas gentes efectuaram por todo o país...somo e registo no meu pequeno caderno de capa preta.

sábado, fevereiro 16, 2008

DAS GEOMETRIAS...



É esta a luz que nos enfeitiça...arquitecturas delicadamente lívidas com azuis de mar fortes.

"À DESCOBERTA DE SINES"





Como a luz desta encantadora cidade me fascina? Mesmo depois de deslumbradas e infinitas visitas, mesmo depois de cansar sem cansar o mais encantador dos deslumbramentos, ela, a cidade, continua noiva desse tempo perdido. Hoje, passeio devagar, calcorreo as suas ruas escancaradas para o mar, aproveito para descansar nas suas dobras, tal como os passáros extasiados nos altivos e incendiados beirais. Fico quieto, como um velho decifrador das matemáticas das sombras e dos gestos, observo a lassidão a trespassar este dia, o mar e os inúmeros barcos dos pescadores em laudanizantes esperas. Desloco-me e transcrevo-me para um velho caderno encardido.